A diversificação dos conselhos de adm. e a oportunidade de carreira para os profissionais de RH

Por Ana Giovanoni

Vice-presidente de Governança do HUBRH+_ABPRH

Para ser capaz de lidar com a rápida transformação do ambiente de negócios, impactado pelos avanços tecnológicos, alterações climáticas, crises políticas, econômicas e sociais, bem como as mudanças demográficas, as empresas estão mudando e recorrendo ao empreendedorismo inovador. E a necessidade de a empresa empreender e inovar faz mudar o perfil dos conselheiros. Isto é uma tendência a ser considerada pelas organizações em prol da “diversidade nos conselhos”.

No dossiê HSM – Você quer ser conselheiro? publicado na edição 132 da HSM Management, Alexandre Silva, presidente de uma das empresas mais inovadoras do Brasil, a Embraer, mencionou que: “o conselho atual é um ambiente criativo. Deve-se pensar fora da caixa e estimular novas ideias.”

Com o intuito de nos permitir entender os diferentes consumidores e outros stakeholders, a diversidade é o que nos habilita a responder melhor às alterações no entorno. E a diversidade em governança não é mais só de gênero, etnia, idade ou os aspectos clássicos. Ela inclui também a diversidade em formação acadêmica, background profissional e tipo de atuação no mercado. São diferentes perfis de conselheiros que permitem que a organização se beneficie da pluralidade de argumentos e tome decisões com maior qualidade e segurança, conforme o Código das Melhores Práticas de Governança Corporativa do IBGC.


Os avanços da diversidade nos conselhos brasileiros


A edição 2019 do Board Index Brasil traz informações sobre as tendências e práticas de governança de 186 empresas listadas nos segmentos especiais da B3, Bolsa de Valores do Brasil. Em sua quinta edição, o Board Index foca na composição dos Conselhos, incluindo dados sobre Comitês e práticas de Governança Corporativa, bem como dados de background setorial e funcional dos conselheiros.

Alguns dados importantes sobre a diversidade nos conselhos de administração demonstrados nesta edição são:

· As mulheres representam 10,5% do total de membros, uma das porcentagens mais baixas na comparação internacional. Se excluirmos as mulheres suplentes este percentual cai para 8,2%. No mundo a presença de mulheres em conselhos representam em média 24,1%.

· Pela primeira vez na história do Board Index Brasil, mais da metade das empresas (53%) apresenta pelo menos uma mulher em seu conselho.

· A idade média dos conselheiros é de 57,2 anos.

· O percentual de conselheiros estrangeiros é 9,2%.

· 39% dos conselheiros são considerados independentes de acordo com os requisitos brasileiros.

· Novos conselheiros representam 20% do total, um dos maiores turnovers já observados no Board Index Brasil.


A composição do Conselho deve buscar diversidade de experiências, comportamentos, aspectos culturais, faixa etária e de gênero para que o órgão reúna as competências necessárias ao exercício de suas atribuições.

O conselho como um colegiado deve reunir competências tais como: alinhamento de valores e conduta com a organização, visão estratégica, argumentação para defender seu ponto de vista, comunicação, disponibilidade de tempo, conhecimento de Governança Corporativa, legislação societária e legislação, gerenciamento de riscos e análise de relatórios financeiros e gerenciais. Neste contexto destaca-se:

· Competências técnicas e experiências, cujo ideal é que os conselheiros estejam alinhados à estratégia da organização para os próximos anos, mas mesclem domínios de conhecimento, cada um em uma área – sobretudo, finanças, auditoria, sustentabilidade, pessoas, novas tecnologias, inovação, supply chain, marketing e vendas, gestão de marcas e, claro, o mercado de atuação.

· Habilidades: capacidade de comunicação é extremamente importante, porém cultivar e gerenciar relacionamentos é essencial para um conselheiro nos dias de hoje. Relacionamentos em todos os âmbitos, com a diretoria executiva, com o mercado, com os pares do board e com stakeholders.


O papel do RH nos Conselhos de Administração


A importância da área de Recursos Humanos no apoio ao Conselho de Administração confirma-se quando o Brasil Board Index 2019 demonstra que 56% das empresas pesquisadas possuem Comitê de Pessoas e esse representa 22% do total de comitês de apoio ao Conselho. As mudanças impostas pela pandemia no ambiente de trabalho, trouxeram esse tema ainda mais forte, tendo em vista a atividade remota, o receio da contaminação e a necessidade de adaptações na vida pessoal para conciliar com a vida profissional. Além disto, a situação dolorosa da perda de familiares e amigos e a incerteza sobre a manutenção do emprego geraram impacto significativo na saúde mental das pessoas, um fator a ser considerado pelos conselheiros.

A pesquisa Influência da COVID-19 na Saúde Mental da população brasileira e de seus profissionais de saúde, conduzida pela Universidade Federal de Minas Gerais, Universidade do Texas e Mackenzie, Associação Brasileira de Psiquiatria, Associação Brasileira de Impulsividade e Patologia, Associação Brasileira do Déficit de Atenção, com apoio do Ministério da Saúde (março/2021) demonstrou que a forma que as pessoas encontraram de encarar a situação tendeu a ser mais negativa, com técnicas de “fuga-evitação”, configurando-se em 40,8% dos respondentes apresentando maior consumo de drogas ilícitas ou lícitas (álcool e cigarro), medicamentos e alimentos, e quase metade dos participantes expressou ter tido sintomas de depressão (46,4%), ansiedade (39,7%) e estresse (42,2%).

Este conjunto de aspectos impactam diretamente na produtividade das equipes e nos resultados das empresas, por isto mais um ponto de atenção relevante para ser analisado pelos conselheiros. Desta forma, a área de Recursos Humanos tem seu papel relevante no desenvolvimento da cultura organizacional e cuidado das pessoas, além de ser uma oportunidade de carreira para estes profissionais em sua trajetória.


A oportunidade de carreira para os profissionais de RH em Governança


As condições impostas pela pandemia na vida privada e profissional das pessoas, forçou muitas a reverem suas colocações, seja porque foram demitidas em meio à crise ou porque mudaram suas perspectivas sobre o futuro. De acordo com a última edição do Índice de Confiança Robert Half (ICRH), a taxa de desemprego dos profissionais qualificados, pessoas com 25 anos de idade ou mais e com formação superior, ficou em 6,38% no último trimestre de 2020, bem abaixo dos 13,9% do desemprego geral. Outro estudo indica que 57% dos trabalhadores brasileiros pretendem buscar um novo trabalho em 2021. A participação em Comitês de Pessoas para apoiar o Conselho de Administração e/ou como conselheiros de administração é uma boa oportunidade para profissionais de RH.

O primeiro passo para o candidato a board member que quer aproveitar a onda de mudanças para fazer carreira é desaprender, ou seja, abandonar a visão fantasiosa que muitos executivos têm: a de ser conselheiro é uma mera sequência da carreira corporativa padrão. Não é.

As competências técnicas até podem ser similares, porém as competências pessoais e comportamentais são bem diferentes e essa transição não pode ser subestimada. Um aspecto essencial é que um executivo em geral atua de maneira mais individualizada, enquanto o conselheiro não faz nada sozinho. Este desenvolvimento é um contínuo aprender, desaprender e reaprender, conforme menciona o pensador norte-americano Alvin Toffler. Um exemplo disto é o destaque na área de Recursos Humanos para os profissionais de People Analytics e especialista em transformação digital/cultural entre as 18 profissões do futuro elencadas no Guia Salarial 2021 da Robert Half.

A transição de carreira para atuação em comitês ou conselhos de administração exige dedicação para conhecer as Melhores Práticas de Governança Corporativa, bem como desenvolvimento de habilidades já mencionadas anteriormente, nunca esquecendo da habilidade de comunicação: às vezes ouvir mais para compreender o contexto é melhor do que argumentar continuamente defendendo seu ponto de vista. Além disto, o networking e a experiência construída ao longo da trajetória profissional demonstrando integridade, envolvimento construtivo e competência são condutas essenciais aos membros de conselhos.

O Hub de Governança da ABPRH está aberto para acolher os profissionais de RH que tem interesse nessa trajetória e está preparando mensalmente artigos sobre o tema para compartilhar conhecimentos e experiências em governança. Para o segundo semestre de 2021, nosso Hub está preparando uma grade de eventos e cursos para apoiar os profissionais nesta trajetória de carreira. Acompanhe nossas mídias sociais e fique por dentro das oportunidades!

Ana Giovanoni, Vice-presidente de Governança na ABPRH, CEO do Grupo Giovanoni, atua na área de Consultoria Organizacional e Governança Corporativa, especialista em Ressignificação do modelo de educação, capacitação e gestão para transformar as organizações, contribuindo com sua sustentabilidade no longo prazo.