Boas práticas em gestão de saúde populacional

Impacto da atenção primária em saúde e ações integradas de prevenção como parte dos objetivos de desenvolvimento sustentável em pauta


São Paulo, 13/09/18 - A importância da atenção primária permeou todos os diálogos travados durante o VI Fórum de Saúde Corporativa e Medicina do Trabalho, promovido pela ABPRH no último dia 13, em São Paulo. Porém, foi no painel IV que o tema teve seus pormenores abordados. A importância da atenção primária permeou todos os diálogos travados durante o VI Fórum de Saúde Corporativa e Medicina do Trabalho, promovido pela ABPRH no último dia 13 de setembro, em São Paulo. Porém, foi no Painel IV que o tema teve seus pormenores abordados.

Com o princípio do debate, o exame médico periódico como oportunidade para definição da linha de cuidado foi a temática da apresentação do coordenador de Saúde Ocupacional do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, Leonardo Piovesan Mendonça. Em sua apresentação ele mostrou a forma como o Hospital cuida do seus colaboradores, por meio de um centro de atenção, com programas que giram em termos de promoção de saúde e qualidade de vida, cuidando da saúde ocupacional e da segurança, e também fazendo a gestão do benefício da saúde. “Aliada à experiência, reconhecida nacional e internacionalmente, de mais de dez anos de cuidado da saúde do colaborador, o Oswaldo Cruz conta com uma equipe de projeto multidisciplinar, disponível para construção conjunta de soluções adaptadas a cada realidade”, salientou.


“Dentro do centro todos os colaboradores têm um passo obrigatório, que é chamado de ‘Consulta Bem-Estar’. Anualmente, é preenchido o questionário de saúde em uma plataforma digital, que avalia o indivíduo em relação ao seus hábitos, seu estilo de vida, se tem doenças preexistentes ou não, e em diversos outros fatores”, explicou Mendonça. A partir de então, são traçadas as linhas de cuidado e, de forma opcional, é oferecido o atendimento de necessidades em saúde para as demandas imediatas de média complexidade. “Mostramos as linhas de cuidado estabelecidas, integradas com as áreas-alvo, para os pacientes crônicos; oferecemos um coaching em saúde e bem-estar integrado ao atendimento virtual, buscando a mudança de estilo de vida para aqueles que são sedentários”, exemplificou, adicionando ainda a possibilidade de atendimento multidisciplinar em nutrição, psicologia, serviço social e acupuntura. Há ainda um centro de imunização.


Como resultado das ações, o número de pessoas que faz 30 minutos ou mais de atividade física moderada em cinco ou mais dias por semana, dentro da população atendida, aumentou 25% entre 2010 e 2017. No tocante aos hábitos alimentares, houve aumento de 32% no número de pessoas que comem porções de frutas duas ou mais vezes por dia e relevante aumento de 158% no número de pessoas que comem porções de grãos integrais três ou mais vezes ao dia, atestando assim o quanto os programas de conscientização em saúde são importantes.


Todos os indicadores de fatores de risco apresentaram queda no mesmo período mencionado. O número de hipertensos caiu 37%; o número de pessoas com distúrbios endócrinos e metabólicos encolheu 35%; e o número de tabagistas baixou 46%. “Até mesmo os níveis de estresse são medidos e apresentaram baixa de 31%.” O sucesso do programa foi tanto que em 2015 outras empresas começaram a demonstrar interesse na ideia, e uma adaptação do programa para outros tipos de negócio passou a ser estruturada pelo hospital e oferecida in company.


Na sequência, Fernando Akio Mariya, gerente médico da Procter & Gamble, também falou das ações integradas de prevenção e promoção de saúde na gestão de saúde populacional dentro da P&G.


“O que eu mais gostaria de destacar é como a medicina dentro das companhias evoluiu”, disse, explicando que no passado a maior atribuição do médico do trabalho se restringia a cuidados de saúde ocupacional no âmbito dos acidentes de trabalho, por exemplo. “Só que a medicina evoluiu, e o novo desafio é que o médico dentro das instituições deve ser como um coach de saúde, fazer benchmark para conhecer as práticas dentro das outras organizações, etc.”


Mariya relembrou que os cuidados inclusive ultrapassaram os muros da empresa, tendo de abarcar os dependentes e familiares dos colaboradores, chegando às comunidades.

Citando uma pesquisa do National Business Group on Health, ele falou dos atuais drivers de bem-estar dos colaboradores. Atualmente as companhias precisam garantir a satisfação no trabalho, item essencial para o bem-estar geral, que é vendido com as métricas tradicionais que os profissionais de recursos humanos já estão acostumados, como pesquisas de clima, níveis de turnover, etc., mas não somente isso.


Outro item importante, segundo ele, é a parte financeira: dados da pesquisa mostram que a situação financeira dos empregados é sua fonte número um de estresse. “Funcionários em dívida passam a trabalhar preocupados, o que pode gerar insônia, dores de cabeça e depressão, todos itens associados a decréscimo de produtividade”, explicou. “Garantir uma forma de o profissional se planejar financeiramente para que não caia em uma dívida pode ser um ponto importante.” Segundo o National Business Group on Health, os empregadores no mundo estão oferecendo uma variedade de soluções para ajudar os funcionários a reduzir o estresse relacionado ao financiamento que vai muito além do planejamento tradicional de aposentadoria.


A saúde emocional de um indivíduo foi outro item citado pelo executivo como um dos drivers de bem-estar, e a pesquisa indica que ela é mais do que a ausência de transtornos mentais. Alguém estar livre de ansiedade ou depressão, por exemplo, não indica a presença das emoções positivas que são parte integrante do bem-estar. Experimentar emoções positivas leva a benefícios duradouros bons para o bem-estar dos funcionários e para o resultado final da organização. Os empregadores podem promover a saúde emocional dos funcionários oferecendo benefícios e programas que os ajudem a administrar adequadamente as condições de saúde mental e o estresse, e a cultivar emoções positivas.


Como já abordado em outras apresentações, ajudar os colaboradores a manter ou melhorar sua saúde física é importante para os empregadores por vários motivos e esse também é um dos drivers apontados pela pesquisa mostrada por Mariya. Fatores como estilo de vida e peso saudáveis, atividade física, boa nutrição e uso zero do tabaco são responsáveis por até 80% de redução no risco de desenvolver as doenças crônicas mais comuns e mortais.


A conexão social, prosseguiu ele, que engloba relacionamentos positivos de apoio e pertencimento social, não é necessária apenas para o bem-estar, mas é também um dos preditores mais fortes. Evidências indicam que, à medida que as pessoas passam mais tempo socializando, a satisfação com a vida e a felicidade geral aumentam. “O que tem acontecido muito é que as pessoas estão exagerando no trabalho e, por conta disso, deixando de socializar, o que afeta seu bem-estar e sua saúde por consequência.”


Para o executivo, o que as companhias precisam começar a mensurar é a necessidade de saúde da sua população. “Grande parte das organizações faz muito bem o trabalho de identificar os motivos dos afastamentos, mas não conhece os hábitos da sua população. Ele afirmou que as instituições não devem fazer programas só porque está na moda, ou só porque deu certo em outra companhia. “Daí vem a necessidade de usar os resultados dos exames periódicos para entender essas carências, o que, aliado a um questionário de saúde e a todas as outras informações que a empresa possuir, acura ainda mais os resultados.”


Aliado a isso, Mariya ressalta outro ponto importante, que não recebe a devida atenção da maioria, em sua opinião: é preciso consultar os trabalhadores sobre a sua intenção de fazer mudanças de hábitos. “Veja as necessidades de saúde da sua população, mas também veja o quanto essa população está disposta a fazer essas melhorias.”


No âmbito do retorno de investimentos nesse cenário, o executivo da P&G afirma que, por mais que um programa assertivo possa ter um custo mais elevado nos primeiros anos, não dando retorno positivo, ele gera muito mais valor. “Planos de mudança de hábitos não têm resolução em um ano” exemplifica, ao dizer que, dentro da companhia onde trabalha, leva-se em média três anos para a conclusão de que o programa teve resultado positivo. “É uma mudança de cultura, o que não é uma coisa rápida.” Há onze anos a empresa estuda no exterior o impacto da promoção em saúde.


RESPONSABILIDADE SOCIAL E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

Gracia Fragalá, diretora do Comitê de Responsabilidade Social da Fiesp, fechou o painel abordando os ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) e a competitividade dos negócios. Citando o presidente da Assembleia Geral da ONU, Miroslav Lajčák, ela afirmou que os ODS precisam das empresas, mas elas também precisam dos ODS, que constituem uma ambiciosa lista de tarefas para todas as pessoas, em todas as partes, a ser cumprida até 2030. Se cumprirmos suas metas, seremos a primeira geração a erradicar a pobreza extrema e pouparemos as gerações futuras.


“Eu fui provocada a fazer uma provocação”, riu ao contar que estava trazendo um tema ainda um pouco desconhecido de modo geral, pois poucas organizações têm ODS em seu planejamento estratégico. “Desde que começamos esse fórum estamos falando dos custos da saúde e do seu impacto para os negócios. As corporações que têm olhado para essa Agenda 2030 têm visto tesouro, pois aquilo que era uma coisa de governo – tirar comunidades da pobreza – virou oportunidade de negócio.”


O papel da executiva no painel era recortar o tema saúde desta agenda. Gracia ligou o objetivo três, que é boa saúde e bem-estar, a oito outros objetivos aos quais está ligado: erradicação da pobreza, igualdade de gênero, trabalho decente e crescimento econômico, parcerias e meios de implementação, cidades e comunidades sustentáveis, revolução das desigualdades, água potável e saneamento; e paz, justiça e instituições fortes. “O que essa agenda vem mostrar para a gente é que, enquanto nós olharmos para a saúde somente para dentro da empresa, para seus custos, para os custos dos planos, sem olhar para essa agenda mais global, continuaremos a enxugar gelo.”


Para a especialista da Fiesp, a disseminação da Agenda 2030 faz ainda com que empresas alinhadas aos ODS tenham suas marcas fortalecidas junto à sociedade. “De tudo o que eu vi aqui, todo mundo já está se superando no atendimento às necessidades da instituição dos seus portões para dentro, então o meu desafio é o mesmo que propõe a ONU: não deixar ninguém para trás. Quando vocês forem fazer qualquer coisa dentro da organização de vocês, olhem o todo e não deixem ninguém para trás”, finalizou.


A moderadora Tania Machado, vice-presidente de eventos, encerrou o painel sugerindo que no fórum do ano que vem seja abordada a visão do colaborador como paciente: “Precisamos ouvir a experiência desse elo da cadeia, do quanto tudo o que estamos fazendo aqui é importante”, finalizou.


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